quarta-feira, 11 de maio de 2011

Hoje é tarde demais.

-Vem comigo, disse ele.
-Para onde me levas, o que queres? Questionava ela reticentemente.
-Vem e não faças mais perguntas, pegando-lhe na mão, timidamente, quase como que se tivesse medo de pegar num objecto já partido com receio de o fragmentar ainda mais.
Caminharam dez minutos e dez minutos permaneceram em silêncio.
Ele olhava-a, ela olhava o céu.
Ela olhava-o, ele olhava a terra.
Transbordava nele um ténue ar de tristeza ligeiramente mascarado em arrependimento, nela, uma face de crença, de esperança, de vida.
Chegaram e, frente a frente, ele expressa-se:
-Estou cansado, sente. E colocou-lhe a mão sobre o peito para que ela pudesse sentir o quão velozmente se fazia sentir o seu coração.
-Queria um pouco de calma para te dizer algo que talvez nunca tenha dito a ninguém, talvez nunca tenha sequer pensado em dizê-lo, até hoje. E cobre a mão dela, ainda sobre o peito, com a sua ela, rapidamente retira a sua.
-Sente. O que sentes? Do mesmo modo e, enquanto lhe pergunta isto, coloca a mão dele sobre o seu peito.
-Nada (?!) interroga-a ele.
-Isso mesmo, nada. Nada porque, em tempos, conseguiste fazer com que o que deveria estar neste lugar desistisse de viver enquanto eu, arrastando-me, tentava não o permitir.
Não sentes nada, porque ele também já não o sente.
Não sentes nada, porque ordenei-o a não sentir e, ao fim de todo este tempo, e tu sabes que dois anos passaram desde que deixei de ser tua e durante estes dois anos desejei voltar a sê-lo. Hoje já não.
Não sentes nada, porque de ti não resta aqui a saudade mas a memória e essa, relembra-me(-te) mas não o faz mais bater por ti.
As lágrimas viam-se cair no rosto dele, uma a uma, nem metade das que deixaram ambos cair no dia da despedida. As mãos uniam-se e apertavam-se com força. Ela deixa cair uma lágrima.
-Não, não tenho saudades nossas. Se me perguntares porque choro contigo não vou responder porque não tenho ciência para o fazer.
-Mas eu a, e ela interpola-o.
-Tu a..inda tiveste tempo. Hoje é tarde demais

4 trapos envoltos.:

Layla disse...

E melhores virão. e se não viessem, a vida não teria sentido.
Amo-te, e com os melhores ou os piores, estarei do teu lado.

Mafalda disse...

Este texto fez-me chorar, fez-me chorar muito. Se calhar porque precisava mesmo de ler isto, sabes? Está fantástico Sara, marcante. Triste, mas com muita coragem em cima. Por se conseguir dizer «hoje é tarde demais». Também queria saber pronunciá-lo.*

Mafalda disse...

Tenso noção que este texto me fez chorar baba e ranho? Ando sensível...ando muito.

vanessa pereirinha disse...

estás em que ano?